Fazendo uma analogia com sistemas governamentais, a Apple seria uma monarquia absolutista.
Esses dias me perguntaram: “o que é melhor, Coca-Cola ou Pepsi?”. Fiquei pensando um pouco e respondi: “Acho que Coca. E para ti, o que é melhor?”, devolvi o questionamento.
E meu interlocutor respondeu: “o melhor é eu ter a opção de escolher qual eu acho melhor!”. Foi meio que uma pegadinha, mas a questão ilustra muito bem o que vou falar em seguida.
Sempre fui usuária de Windows por uma questão de mercado. É a plataforma adotada pela maioria das pessoas, uma infinidade de aplicativos são disponibilizados para ele, e grande parte dos sistemas de meus clientes costuma ser para Windows. No entanto sempre tive uma pontinha de inveja daqueles que usavam Mac.
Em termos de mercado, o número de usuários costumava ser ínfimo. Esse pequeno número, no entanto, parecia representar um clube Vip, fechado, privilegiado. Alegava-se que, mesmo sendo mais caro, monetariamente falando, o Mac se pagava plenamente em termos de satisfação.
A interface era extremamente amigável, tudo muito simples, sem crashes nem bugs. E eu sempre acreditei nisso. No meu imaginário, a qualidade do Mac (entenda-se o conjunto de hardware e software) era superior a do Windows. Porém, não era popular por ser bem mais caro. Coisa de grife.
O tempo passou e novos dispositivos começaram a fazer parte de nosso dia-a-dia. O apelo dos novos gadgets tornou-se muito grande. E o que era restrito a um pequeno grupo de usuários passou a ser um fenômeno universal. Resolvi, então, me deleitar com os prazeres da Apple. Adquiri um iPad e pensei: “agora vou começar a ser feliz!”. Foi aí que começou minha desilusão.
Como usuária de Windows, minha expectativa — alimentada também pelo alarde da mídia — era que esse pequeno aparelho superasse qualquer outro existente. Peguei então o meu novo dispositivo — nada barato, diga-se de passagem — e impetuosamente comecei a manipulá-lo. Os primeiros momentos foram de um prazer indescritível. A sensível tela reagindo ao menor contato de meus dedos, e um mundo novo se descortinando à minha frente.
Comecei, então, a navegar pela web e notei algo estranho nos sites que costumo frequentar. “Ah, está sem o Flash” — que, como todos sabem, é um padrão mais do que consagrado e utilizado por uma infinidade de websites. “Então vou baixar o arquivo e instalá-lo. Ôpa, não posso? A Apple não permite?” Primeira pequena frustração.
“Bom, então vou colocar algumas fotos que estão no meu notebook para que eu possa exibi-las no iPad como um porta-retratos virtual. Mas ué? Cadê a entrada USB? Não tem? Hmmm….”. Segunda média frustração.
“Ok, vou então baixar alguns programas para usufruir de todos os recursos de minha nova aquisição. Mas…só posso utilizar aplicativos da AppStore? E para isso preciso me pré-cadastrar e deixar os dados do meu cartão de crédito, mesmo que eu ainda não tenha intenção de comprar nada?”.
Indignação total. A essas alturas minha boa vontade com o aparelho começou a esvair-se. “E câmera de vídeo? Paguei essa pequena fortuna, e ele não tem sequer uma câmera? E quanto aos aplicativos em si? Não percebi aquela fantástica diferença que julguei que sentiria. Pelo contrário, algumas interfaces, com o objetivo de serem tão cleans, acabam se tornando um verdadeiro enigma. Como uso esse raio de software? E o teclado, onde estão os acentos?? Acho que vou ligar o meu notebook…”.
Como Henry Ford que dizia, no início do século passado, que automóvel poderia ser de qualquer cor desde que fosse preto, a Apple, em pleno século XXI, parece dizer que software pode ser qualquer um, desde que seja da AppStore.
Paralelo a isso, comecei a ter contato com outros hardwares que utilizam a tecnologia Android. Fiquei surpresa com o que são capazes de fazer. Não deixam nada a desejar para os dispositivos da Apple. E rodam Flash, têm USB, vídeo e permitem baixar e instalar arquivos de diversas procedências. E ainda por cima são mais baratos.
Aí que eu quero voltar à questão inicial. Inevitavelmente comecei a fazer comparações e me questionei: “afinal, o que é melhor?”. E como na resposta do refrigerante, cheguei a conclusão que o melhor é ter opções, coisa na qual a Apple não é muito flexível.
Se fizéssemos uma analogia com sistemas governamentais, diria que a Apple, com seu pacote restritivo de hardware e software, seria como uma monarquia absolutista, e os dispositivos com Android, cuja combinação com o hardware pode variar livremente, seriam como uma democracia socialista.
A Apple se comporta como um monarca, que é reverenciado sem muitos questionamentos, e muitos desejam estar ao seu lado por conferir-lhes status. Já o Android é mais aberto ao diálogo e permite que se façam escolhas.
Os usuários da Apple seriam uma espécie de nobreza: duquesas, viscondes e barões que pagam mais caro, acabam tendo menos e se sentem em vantagem mesmo assim. Já os usuários de Android seriam as pessoas comuns, que buscam a liberdade de opções, por um preço mais justo.
Apesar de minha desilusão, minha relação com a Apple ainda não está rompida. Sigo utilizando meu iPad e me divertindo com ele. Mas desconfio que será só isso, apenas diversão. Relacionamento sério mesmo só com quem me proporciona mais segurança, diálogo e opções.
Letícia Polydoro

